segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Crônicas, máscaras e bobagens

Ah, a liberdade de expressão! Daquelas buscas incansáveis de todo que se pretende a escritor. Perseguida como o Shangri-la da mente criativa independente. Sempre me intrigou a capacidade que um possui de se livrar das amarras sociais invisíveis; da limítrofe entre o belo-oportuno e o inadequadamente invasivo. Talvez a diferença esteja na própria índole de quem escreve. As justificativas sempre são as mesmas: “Escrevo pois penso, pois posso.”; “Minha mente não pode ser tolhida, por isso deixo que sua voz saia por conta própria, adquirindo vida e essência à medida que os caracteres são pressionados no teclado.”
Besteira! Não há uma mente criativa. Não existe uma instância separada do próprio indivíduo. Um homúnculo que habita em nossas cabeças, puxando o fio de nossas decisões. Somos unos e responsáveis integralmente pelo que pensamos e fazemos. Escrever não é ato incontrolável ou abusivo que se preste a qualquer valor de desejo infundado. Palavras constroem tanto quanto abalam estruturas, e o escrutínio de uma vida através de uma crônica pode desestabilizar relações. Por mais cômicas que possam parecer, escravizam seus personagens numa realidade incontestavelmente ausente de pretensão da crônica a priori.
Conheci um escritor certa vez, gabando-se de suas imortais possibilidades da vida eterna literária; de sua habilidade em traduzir em verbetes as agruras de quem observa no decorrer de seus dias vagueantes. Escrever, qualquer um escreve. Certo, errado, com ritmo ou com poesia. Agora, sensibilidade para discernir entre limites éticos de convivência social não é tão fácil assim. A critica disfarçada de bom humor não confunde àquele que é criticado. Disfarçar suas próprias agruras e individualidades indizíveis através do dissecamento do ridículo do outro é tarefa fácil. Demonstração de coragem é o reconhecimento de suas próprias incoerências. A demonstração de um auto-conhecimento inabalável pela exposição ao público. Um desejo de vencer o limite maior, o limite da própria revelação. Não uma idiótica máscara de bobagens e risadinhas que encantam aos que não se permitem uma critica intelectual mais profunda. Diria o poeta que isso sim é escrever com a alma. Diria o filósofo que isso sim é conhecer a si mesmo; mas conhecer tanto que não se priva ao que lê a totalidade daquele que escreve.

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